Minhas férias
O homem tem uns setenta anos. Amplo no tamanho e contido nos gestos.
A mulher, mais nova, usa uns óculos profundos, que tornam seus olhos miúdos.
No salão do café da manhã do hotel, ela está de frente para mim, ele de costas.
Na minha frente, além do casal, uma medialuna besuntada de manteiga e um submarino, leite quente com uma barra de chocolate derretendo ao fundo.
Ele fala alto sem nenhum constrangimento.
Ela, parece acostumada com o marido gritalhão.
São argentinos, mas não são portenhos.
O assunto do homem tem a ver com alguém que não telefonou quando deveria ter telefonado.
Eles são dessa geração que espera e recebe telefonemas.
Precisam ser lembrados de ler mensagens de texto.
Isso sim é que são férias.
Ficar ali, tomando o tanto de café da manhã que me der na telha, escutando a conversa de um casal de estranhos sem nenhuma pressa ou compromisso.
De lá, vou até a piscina.
Deitar numa espreguiçadeira e ficar olhando para o céu Pantone 299 de Buenos Aires.
Ontem, nessa mesma situação, descobri que os mosquitos portenhos voam em diferentes camadas. Como se fossem proprietários, cada um, de seu próprio espaço aéreo.
Contei 8 camadas.
Hoje pretendo confirmar minhas observações.
Depois talvez vá comer um matambre.
De volta ao homem que levantou para pegar uma torrada e como se a mesa estivesse distante, fala ainda mais alto.
Parece que alguém cobrou 200 dólares para um passeio pela cidade e não apareceu.
Ele está revoltado, mas não é por isso que está falando alto.
Se pode notar que fala alto naturalmente.
Em São Paulo eu teria olhado com meu olhar de reprovação. Um que ninguém percebe, mas alivia aquela raiva interior que a gente desenvolve com anos de injustiças.
Tenho várias reações dessas.
Micro expressões, que ninguém percebe, mas que são como uma Novalgina para minhas dores da alma.
Uma fechada no trânsito?
Um breve nãozinho com a cabeça. Alguém que fura uma fila?
Um suave ruído entortando a boca.
Um sujeito arrogante?
Um revirar de olhos.
E por aí vai.
Mas aqui, nas férias, as regras são outras.
Então forço o contato visual, justo quando o sujeito está no mais indignado de seu discurso em seu sotaque de Córdoba.
Ele me vê.
Sorrio e faço que sim com a cabeça, como quem diz “tenes razón! que pelotudo de mierda!”
Por um segundo, somos um time
Ele sabe que tem um aliado.
Isso aqui vai longe.
Férias é isso.


